sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Foi assim...

centralhotel
Há também a lembrança de um grupo de amigos, o pessoal do “Central Café”, lá no Central Hotel, composto por professores, escritores, poetas e políticos. O meu ingresso nesse grupo foi feito por intermédio da política, pois,  era um dos mais jovens integrantes do PCB, com 18 anos, fui atraído para o grupo por um companheiro e amigo, o poeta Ruy Barata( autor de várias músicas cantadas pela Fafá). Lá reencontrei alguns professores e conheci outros. Foi uma etapa frutífera e prazerosa, num certo sentido a minha real e efetiva Universidade, com graduação, mestrado e doutorado. Foi graças a esses geniais amigos e mestres, como o Benedito Nunes, o Las Casas, Chico Mendes, Napoleão Figueiredo, Raimundo de Souza, que aprendi a ver o mundo e a cultura bem além dos limites do marxismo, além de terem me proporcionado conhecer e me tornar amigo de gente como o Darcy Ribeiro, o Mário Faustino, o Dalcídio Jurandir, o Irawaldyr Rocha, o Joaquim Francisco e outros.
ruibarata Jocelyn Benedito_Nunes
Dentre os meu amigos e companheiros daquela época, houve alguns que sempre foram destacados, seja pela combatividade, talento político e capacidade aglutinadora. O coronel-aviador Jocelyn Brasil, um homem de múltiplas facetas: poeta, compositor, escritor, político, técnico de futebol, comentarista e jornalista esportivo, por exemplo, era um deles. O velho Joça, como afetuosamente nós o chamávamos, era amigo de meu pai e de um outro amigo nosso, o então deputado Cléo Bernardo, que serviu de ponte para a nossa amizade. O Jocelyn era exuberante em quase tudo que fazia, gestos largos, voz potente e alta eram a marca mais visível daquele homem extremamente amigo e afetuoso. Ele também, como não podia deixar de ser, fazia parte da turma do Central.
Mas, como os tempos estavam mudando para pior, tive que vir para o Rio e aí uma outra vida teve início. Uma vida que redundou em alguns anos fora do país. Em 1966 viajei para Buenos Aires e por lá me quedei por quase onze anos. Embora tenha viajado por outras terras e continentes, como os EUA, a Europa, a Ásia e a África, foi na Argentina que fiz a minha base de operação. Foi uma etapa muito criativa da minha vida, pois, por artes da coinciência de estar vivendo numa cidade que tem o mesmo sobrenome que eu, ainda contava com o prazer de todos os dias caminhar pelo tempo, tal a força das arquiteturas Art Nouveau e Art Deco que a gente vê intactas nas ruas, praças, restaurantes, teatros, cafés e bares. Depois de muitas peripécias, deixei-me envolver pelo canto de sereia do Brizola e do Darcy, voltei para o Brasil, primeiro S. Paulo, depois o Rio, que acabei deixando para vir morar no interior do Estado, em Vassouras.
vassouras
    A minha vinda para Vassouras, que é uma cidade histórica próxima ao Rio, depois de uma temporada em S. Paulo e mais um período no Rio de Janeiro, teve como principal motivação a extrema necessidade de morar em um local que me garantisse sobra de recursos para sobreviver com alguma dignidade e qualidade de vida. E também porque me deixava bem distante de algumas tentações, como a política tradicional, com o fim do fase Brizola no Rio, compreendi que era quase como um dinossauro. Vassouras me deu tudo isso, mais tranqüilidade e ar puro. Hoje, quando tenho que ir ao Rio, palavra que fico contrafeito e irritado.
    Agora vou te contar um pouco da minha vida. Hoje, quando faço o retrospecto de tudo, fico espantado com  que vivi, vi e senti. Pena que não seja cabotino o suficiente para escrever um livro de memórias. Dos meus 17 anos até aos 50 a minha vida foi um grande redemoinho, em que eu não conseguia sair do vórtice. Ora eram questões políticas, ora pessoais.
        Tudo começou com o meu engajamento político como estudante secundarista e depois universitário. Como eu era um bocado CDF em matéria de estudos, feliz ou infelizmente ingressei bem cedo na Faculdade de Direito da Univ. Federal do Pará. Até aí nada de mais, pois, outros também ingressaram, a diferença veio pela minha já intensa participação nas lutas políticas, o problema é que depois veio a renúncia do Jânio Quadros e como tinha alguma experiência, fui um dos que participou da Luta pela Legalidade, inclusive mais tarde indo até Porto Alegre, quando conheci Leonel Brizola.
brizalegalidade
    Foi um etapa bem complicada, pois, tinha que coordenar a minha vida política clandestina com as minhas atividades como jornalista, professor de ensino médio e as viagens que fazia. Num certo sentido até que foi positivo, pois, obrigou-me a fazer das tripas coração para ajustar tudo. Como o Brasil, segundo a maioria dos analistas políticos dizia estava se encaminhando para um acelerado crescimento capitalista autônomo, tudo favorecia as novas(sic) formas de organização política, até capaz de produzir a legalidade para o PCB.
    O resultado foi a estruturação de um forte grupo de esquerda, a organização do PCB no meio universitário e a reformulação da UAP( União Acadêmica Paraense ). Mais tarde, graças ao meu envolvimento na condução de uma greve geral do movimento universitário em prol da Reforma da Universidade Brasileira, fui eleito vice-presidente de Assuntos Nacionais da UNE, gestão 1962/63, de forma bem indireta, quase biônica, por artes de uma manobra política executada com a aquiescência do vice-presidente, o Luiz Oscar Cunha de Toledo, paulista, da Polop, que aceitou me deixar como vice enquanto viajava pela Europa. Uma viagem que só terminou em julho de 1963 . Com isso e mais outros compromissos políticos a minha vida foi um tal de viajar pelo país que quase me deu know-how para ser guia de turismo.
    Um das minhas últimas atividades como vice da UNE foi em Goiânia, maio de 63, quando fomos forçados a suspender um seminário sobre problemas regionais devido aos graves problemas políticos vividos pelo país, problemas gerados pela formidável agitação/pregação golpista do pessoal da UDN, do IBAD e do IPÊS. A minha última ação como vice-presidente da UNE foi em Salvador, Bahia, em junho de 63, quando fui o autor da tese e delegado da UNE no Seminário dos Estudantes do Mundo Subdesenvolvido sobre o tema “Os estudantes e as lutas de libertação nacional”, em que defendia a tese de que a maior contribuição que o mundo subdesenvolvido poderia dar para a Paz Mundial era aprofundar as lutas contra o colonialismo e o imperialismo. O Seminário foi bom, teve a participação de desenvolvidos e subdesenvolvidos, além de alguns políticos baianos e brasileiros, como ACM, Valdyr Pires, San Tiago Dantas e outros.
    Foi nesse Seminário que conheci o ACM, na época um feroz deputado estadual pela UDN, mas semi-aliado de João Goulart. Pelos seus pronunciamentos até parecia que a “revolução socialista” teria início na Bahia e sob a sua liderança. Depois do Golpe de 64, com a mesma veemência, passou a denunciar a todos os seus colegas de bancada e outros. Era mais radical que o mais violento militar, tanto que até o pessoal militar tinha medo dele.       
Entre 1963 e o Golpe de 64, já fora da vice-presidência da UNE, fiquei como assessor-chefe da UNE e do presidente da entidade, o atual senador paulista e ministro da Saúde, José Serra. 1963 foi o ano chave para a minha vida e, infelizmente, para muita gente. Quando o ano começou, nós, da UNE, estávamos com um baita problemão – o isolamento da entidade de sua base social, os universitários e seus diretórios acadêmicos. Por mais fizéssemos isto, isso ou aquilo, em termos políticos e de atendimento a certos reclamos do universariado, como o aumento dos restaurantes universitários e com o direito de clientela para os estudantes secundaristas, seminários regionais para discutir os problemas do Brasil a partir de cada realidade regional e o nosso engajamento na luta pelas Reformas de Base (Reforma Agrária, Bancária, Fiscal e Cambial, por exemplo), a UNE continuava isolada.
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Até que um dia, era um sábado de janeiro, conversando com mais dois diretores da UNE sobre a última encíclica do Papa João XXIII, a “Pacem in Terris”( Paz na Terra), em que abordávamos a importância daquele documento para um novo re-direcionamento da Igreja e de que, mais do que qualquer outro fato, era algo merecedor de um Prêmio Nobel da Paz. Assim pensamos e assim fizemos. Imediatamente mandamos fazer uma grande faixa para ser colocada na fachada do prédio, Praia do Flamengo 132, indicando o Papa João XXIII para o Prêmio Nobel da Paz. O Geraldo Rocha Moraes, vice-presidente e o Mafra, juntos com a Maria Angélica, militante e dirigente da Ação Popular, foram inscansáveis na consolidação dessa proposta. Uma proposta que nos tirou do isolamento e nos deu alento para o que ainda faltava ser feito.
Gastamos o resto do sábado e o domingo em articulações e conversas com o meio eclesiástico progressista (padres Vaz, Cardonnel, Josaphat e alguns bispos novos, como Valdyr Calheiros) e setores laicos da Igreja, mas com grande força como Tristão de Athayde, deputados federais Clóvis Ferro Costa e Gabriel Passos. Na segunda-feira, às 5 horas da manhã colocamos a faixa com o lançamento de João XXIII para o Prêmio Nobel da Paz, muito bem pintada e desenhada pelo Andrei Salvador, já contando com o apoio desse pessoal católico, o que incluía a JUC e a JEC. Foi o fim de nosso isolamento.
        Esse isolamento era o resultado da extrema irritação do meio acadêmico estudantil pelo insucesso da “Greve de 1/3”, àquela greve em que pretendíamos através da participação de 1/3 dos universitários em todos os órgãos colegiados da Universidade como o primeiro movimento para uma ampla Reforma Universitária. Uma Reforma que incluía o aumento dos cursos noturnos nas Universidades públicas como forma de atender à demanda dos estudantes mais pobres, modificação do curso médio (hoje seria o 2º grau) com o seu aumento para cinco anos, com os três últimos anos servindo como referência para o ingresso nos cursos superiores mediante a análise do rendimento escolar global do estudante.
    Uma reforma que, também, pretendia fazer com que os dois primeiros anos na Universidade fossem básicos e comuns a todos, independente do curso a ser seguido depois, pois, acreditávamos que só através de uma educação humanista, universal e regionalizada, ao mesmo tempo, seria possível fazer da Universidade Brasileira um centro de excelência para o pensar e para o fazimento da Ciência. Como a UNE daquela época tinha a sua força extraída da grande massa estudantil organizada em  faculdades e diretórios acadêmicos como expressão dessas unidades escolares, ficar sem os diretórios ou centros acadêmicos era o mesmo que ficar sem ar.
    Com a campanha de indicação do Papa João XXIII para o Prêmio Nobel da Paz, não só saímos do isolamento, como ampliamos o nosso arco social. Pena que o Papa tenha morrido antes de termos conseguido concluir a campanha, pois, se houve alguém merecedor desse Prêmio, esse alguém foi o Papa João XXIII, que já havia brindado o mundo com uma encíclica revolucionária em seu conteúdo de apoio às lutas dos pobres e despossuídos, a “Mater et Magistra” (Mãe e Mestra), de 1961, a instalação do “Concílio Vaticano II” em 1962 e a “Pacem in Terris”, 1963. O Papa João XXIII morreu em junho de 1963.
        Aquele ano foi pleno de confusões e lições. No campo político nacional vivíamos um quadro de extrema agitação política e social desencadeado pela direita e por setores nacionalistas e progressistas da sociedade. A direita, sob o comando de Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Jânio e Ademar de Barros, ostensiva e publicamente financiada pela embaixada dos EUA, chefiada por Lincoln Gordon, fazia de tudo. Criou dois Institutos de Pesquisa para encobrir as atividades da CIA e agrupamentos dos serviços secretos de nossas forças armadas em prol de um Golpe de Estado, o IPÊS (Instituto de Pesquisas Sociais, sob a direção do então Coronel Golbery do Couto e Silva e do então embaixador e banqueiro brasileiro Roberto Campos) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática, sob a direção de políticos como Bilac Pinto, Magalhães Pinto, etc..). Com um, o IPÊS, produzia textos “teóricos” de propaganda anticomunista e antinacionalista. Com o outro, o IBAD, desenvolvia as milionárias campanhas políticas de seus filiados e simpatizantes, tanto que na eleição de 1962, só em Minas Gerais elegeu mais de 10 deputados federais.
        Os setores nacionalistas e populares, tal qual hoje, só dispunham da muita vontade, da coragem e da liderança pessoal de alguns políticos, como o então deputado federal do PTB gaúcho, Leonel Brizola. É bem verdade que naquela época o movimento sindical tinha mais unidade e lideranças de grande representatividade organizados na Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), que aglomerava todas as Federações sindicais de trabalhadores e com isso apresentava um alto grau de combatividade e poder de ação reivindicativa. A UNE, novamente forte pela base, tinha grande expressão política, pois, ao mesmo tempo em que lutava por questões específicas, era capaz de mobilizar e ser mobilizada para as grandes lutas democráticas e sociais do povo brasileiro.                                          E assim, esse grupo, composto da CGT, da UNE e da Frente Parlamentar Nacionalista, organizou-se naquilo que ficou conhecido como Frente de Mobilização Popular (FMP), não só como meio de combater ao que era feito pela direita, mas, principalmente, para desencadear uma grande campanha de esclarecimento popular a respeito das Reformas de Base. A nossa campanha teria início em abril/maio de 1964, com comícios em Recife, Fortaleza, Belém, Salvador, B. Horizonte, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro.
        Para piorar o quadro, além das bobagens feitas pelos Sargentos, que se rebelaram em Brasília e do clima de instabilidade militar, com semanais boatos de golpes, a inflação e a carestia minavam os salários dos trabalhadores, que sempre tentavam garantir a reposição dos valores reais perdidos. Greves, insatisfação militar, intensa boataria e propaganda golpista eram o caldo de cultura em que militávamos.
        Para nós, que acreditávamos na necessidade daquelas Reformas como meio de tirar o país do atoleiro do subdesenvolvimento, de ampliar as conquistas democráticas e sociais, de eliminar os resquícios de uma sociedade semifeudal, que era o latifúndio e suas relações de produção, quando aconteceu o que aconteceu, foi um choque e uma perplexidade. Só mais tarde é que foi possível compreender que muitas daquelas teses estavam equivocadas, pois, o assim como a desigualdade regional, o latifúndio também era uma fenômeno capitalista, jamais uma reminiscência semi-feudal. O desenvolvimento que os países latino-americanos podem ter é aquilo que Gunder Frank chamou de o lúmpem-desenvolvimento de uma lúmpem-burguesia.

UAPUNE Olhar para trás é algo mais difícil do que aparenta. O normal é a gente pensar que basta recordar e pronto. Este processo não é o problema. Ele surge quando os fatos, as datas e as pessoas começam a se misturar, criando situações e cenários bem distintos do que aconteceu mesmo. A questão é tentar discernir o que foi real e concreto, daquilo que já começamos a fantasiar e ver com os olhos do sonho. É uma garimpagem bem dura, pois, gostando ou não, a gente vai revivendo tudo de novo, o bom, o ruim, a alegria, as tristezas e o que é pior, as frustrações.  Mas, tem que se seguir em frente, pois, de certa maneira há a sensação de que conseguimos corrigir algumas coisas. Pelo menos, lá dentro da gente, há uma arrumação e limpeza. Ordena-se a memória, com suas emoções e fantasias, com a diferença que nada pode ser catalogado e arquivado em fichários, não, tudo fica em ordem, mas, junto tal como aconteceu. Limpa-se a alma com essa “revivência” e fica a certeza de que tudo aconteceu porque não podia ser de outra forma.
O grupo do Central Café, no Central Hotel, na avenida Pres. Vargas, antiga 15 de Agosto, teve uma importância decisiva nos rumos da minha vida. Não que tivesse me dito o que fazer, mas, por ter me estimulado ao máximo a fazer do conhecimento uma base para pensar e agir. O meu orgulho é que fui o primeiro quase adolescente a ser aceito pelo grupo e depois, por minha influência e insistência, outros amigos passaram a freqüentar a roda. Heitor Dourado, Ramiro Bentes, Mário Sérgio, Chico Costa, André Nunes, etc., foram alguns desses amigos que passaram a ver naquela roda um importante instrumento de aprendizado. É claro que houve algo que quase justificou o meu ingresso no grupo, o fato de ter sido escolhido pela profª Maria Anunciada Chaves, diretora e professora de História do Colégio Moderno, para fazer o curso do CAPES e assim virar um professor. Foi um curso puxado, pois tinha aulas das 18 às 22 horas todo dia e aos sábados à tarde toda. Só tivemos dois feriados – o Primeiro de Maio e o Natal. Nessa época eu estava com 17 anos e isso deixou muita gente espantada. Porém, o Chico, o Ruy, o Jocelyn  e o Benedito que já me conheciam de andanças políticas nacionalistas no movimento secundário achavam bem normal. E foi assim, com o status de professor de ensino médio que me credenciei para o grupo. Um grupo que, além das discussões sobre tudo (política, literatura, filosofia, sociologia e antropologia), ensinou-me o gosto pela ironia. Um gosto que até hoje perdura. pcb
O meu ingresso no PCB foi bem interessante, pois, está vinculado a um documento de organização de um “partido” político estudantil, a Frente Nacionalista e Patriótica. Não consigo me lembrar como, mas, o citado projeto de “partido” chegou às mãos do Luiz Alfredo Oliveira, que entrou em contato comigo e sem mais nem menos, fez-me uma pergunta que não esqueci até hoje”
- Pedro, você sabe o que ‘centralismo democrático” ? É claro que a minha resposta foi negativa, pois, embora fosse um voraz leitor de toda a literatura nacionalista e até de alguns livros que falavam sobre o materialismo histórico e dialético, jamais tinha lido algo sobre a estrutura organizacional de um Partido Comunista. E o tal projeto era sem tirar nem por, quase que uma cópia simplificada dos estatutos do PCB. Foi o que soube alguns meses depois, assim que li sobre o PCB. Fiquei espantado, pois, na minha cabeça o que interessava era montar um partido em que a maioria realmente detivesse o comando político-administrativo da organização, como lhe assegurasse mais flexibilidade na ação e nas tomadas de decisão. Mais tarde, em conversa com o Humberto Lopes, secretário-político do Partido em Belém, descobri que havia um grande espanto pelo fato d’eu ter conseguido chegar à essência da forma organizativa do PCB sem nunca ter lidado com algo parecido ou similar.
O PCB do Pará era bem interessante em termos de sua composição social, pois, ao mesmo tempo em que tinha uma forte base no Porto de Belém e em algumas pequenas fábricas, estava cheio de pequeno-burgueses. Todos pessoas geniais em termos de solidariedade e capacidade de luta, afinal de contas, o PCB era clandestino e fora-da-lei. Advogados, juízes, médicos, engenheiros, funcionários públicos e universitários compunham o universo organizado da esquerda paraense, embora houvesse a utopia socialista do Cleo Bernardo e grupos que tentavam criar o PCdoB. Uma situação bem esquisita, pois, quase todo mundo conhecia e gostava do João Amazonas, um paraense de boa cepa. pcb1
Entretanto, com todas as dificuldades oficiais e oficiosas o Partido tentava agir. O problema é que aquele agir tinha muito de mecanicista e quase um auto-ilusionismo, pois, acontecesse o que acontecesse, todos os informes e documentos do Partido, quase sem exceção tinham como abertura uma frase que ficou famosa: “Mais uma vez foi confirmada a justeza de nossa linha política……”. E isso, mesmo depois de flagrantes e desmoralizadoras derrotas políticas. O erro era dos companheiros ou do Partido? Hoje, várias décadas depois, sei que o erro era da falsidade da concepção política que grassava em todo o mundo, pois, vendo o mundo a partir de uma simples dicotomia entre proletariado e burguesia, não era possível compreender a realidade tal qual ela se mostrava, sendo que em algumas vezes a realidade, coitada, era acusada de tudo. E assim de uma lição ali e outra acolá, a vida corria com a força dos rios que formam a nossa região, mas, que quase sempre nos iludem com a plácida aparência de seus leitos. E eu tentava fazer o mesmo.
É claro que houve algumas namoradas oficiais, só que Belém ainda era uma cidade pequena e todas temiam um compromisso com um famigerado comunista e para piorar sem fortuna ou um grande emprego. Entretanto, já sabia o que era a paixão e a doença, e pressentia o que poderia ser o Amor. Desse modo, treinando para o amor, fui levando a minha vida. Uma vidinha que só foi interrompida quando a minha presença em Belém ficou impossível por questões políticas e aí fui forçado a vir para o Rio também, onde todos os meus familiares já moravam há uns cinco anos, graças às mentiras e intrigas do major Jarbas Passarinho. Uma das mais perfeitas e acabadas toupeiras que já lidei, além de profundamente ambicioso, arrogante e sem ética alguma. 
Ele, após ter ordenado a invasão do Sindicato dos Petroleiros e Empregados da Petrobrás à procura de provas de ações subversivas, encontrou o que queria sem muito esforço, pois, segundo o falecido coronel Jefferson Cardim, que era o Chefe do Estado Maior da 8ª Região Militar, sediada em Belém, os documentos tinham sido escritos pelo S2 (a Segunda Secção, o serviço secreto do Exército), comandada por Jarbas. Nesses documentos eu era apresentado como Comandante de um grupo de 15 mil guerrilheiros-camponeses, armados com armas tchecas e soviéticas. Foi aberto um IPM e fui chamado para conversar com comandante da RM, o general Taurino Resende, que fazia questão de me conhecer. A conversa foi bem engraçada, pois, perguntei ao general se ele me conhecia e ele disse que sabia das minhas posições políticas e profissionais (professor, jornalista e estudante de Direito). Perguntei-lhe se me considerava burro, ele disse que não e quis saber porque eu estava fazendo aquela pergunta. Disse-lhe, mais ou menos o seguinte: “General, o ativo das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) na região amazônica não ultrapassava os 5 mil homens em armas (fuzís da 2ª Guerra Mundial). Ora, se eu, comandava e treinava 15 mil homens armados com o que havia de mais moderno e versátil em armas leves, como os fuzís AK47, quem estaria fazendo perguntas a quem ?” O General riu muito e me mandou embora, dizendo que iria atrasar o máximo que pudesse o desenvolvimento do IPM e que mandaria averigüar sobre o que eu tinha dito sobre o Major Jarbas. Aconselhou-me a sair de Belém, assim o major ficaria mais calmo e ele poderia fazer o que estava me dizendo. A bem da verdade, graças aos empecilhos e entraves provocados pelo General e pela Auditoria Militar de lá, só em meados de 1963 é que foi instaurado o processo, em que fui incurso na Lei de Segurança Nacional. Tudo porque o Jarbas acreditava que eu tinha bloqueado a sua possível candidatura ao Governo do Pará pelo PSB, do qual era secretário, em 1960. Um fato que só existia na cabeça e na ambição dele.
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    O Rio de Janeiro não me era estranho. Volta e meia por ali passava uns dias com meus pais e irmãos. Gostava da cidade e para minha sorte continuava sendo jornalista, além de manter os mesmos afazeres políticos de antes, a diferença era que naquele momento deixara de ser um simples político provinciano para viver sob os holofotes da política nacional. A exemplo de todos, freqüentava Copacabana, Lapa e Ipanema. Comia no Lamas, bebia no Zeppelin e Jangadeiros. Adorava andar de bonde e circular pelo centro da cidade, aliás todos os jornais tinham suas redações ali no centro. Como trabalhava em três – “Última Hora”, “O Jornal” e “Correio da Manhã”, mais familiar o centro me ficava. Hoje, infelizmente, resta pouca coisa daquela fase. Refeito dos antigos dissabores e cheio de otimismo no futuro e no progresso do país, tentava me firmar como jornalista e político.
Creio que só obtive algum sucesso no primeiro objetivo, o segundo tinha muitos embaraços legais e ideológicos para ser uma conquista fácil, mesmo para mim, membro da direção nacional do PCB. Aliás, creio que as maiores dificuldades viriam desse mesmo núcleo dirigente, pois, notara que a maioria estava desgostando da minha “promoção”, por ser, segundo esse grupo, muito jovem e oriundo de uma região inexpressiva em termos político-econômicos. E para piorar tudo, meses depois de estar no Rio, recebi o encargo de dirigir politicamente os grupos do PCB que atuavam na UNE e em todo movimento juvenil do partido no país. 
Assim que cheguei ao Rio, apresentei-me no CC, lembro que falei com o Granja e com o Giocondo, que logo me colocaram na Secretaria de Massa para dar apoio como assistente a alguns núcleos da CNTI e metalúrgicos.  Não demorei muito por lá, pois, fui chamado para conversar com a Zuleika e o Prestes, sendo logo deslocado para a Secretaria Política da Fração da UNE. Essa “promoção”, ainda que fosse competência e do livre arbítrio do CC, criou-me alguns problemas com certos companheiros no Rio, como ex-responsável pela fração e seus amigos do Comitê Regional, que ficaram irritados em não terem podido discutir sobre nada. A hostilidade do Tonico permaneceu  até hoje, embora tenha sido bem aceito pelos demais membros da Fração, como a Ely Diniz, a Aspásia Bandeira, o César Guimarães, o Almir e os diretores da UNE que eram do Partido. Como o meu modo de ser poderia ser considerado “low profile”, sempre com mais ênfase no trabalho coletivo e organizado, aos poucos foi possível o crescimento da importância política do PCB no movimento universitário, tanto que no Congresso da UNE de 1963  a diretoria da entidade ficou dividida em termos iguais e tudo indicava que faríamos o futuro presidente da UNE, o ex-vice-presidente da UNE 62/63, presidente da UEB, Carlos Alberto Oliveira dos Santos.
Janeiro e fevereiro de 1964 voaram e com eles mais e mais ficava sombrio o quadro político. No mês de março estava marcado um seminário de estudos regionais que tinha organizado e providenciado tudo, o I Seminário de Estudos da Amazônia, em Manaus. Embora o quadro institucional apresentasse algumas fraturas, manteve-se o ISEA e assim, eu, o Serra e outros dirigentes da UNE voamos para Manaus, lá chegando no dia 21 de março, sendo que eu já estava por lá. 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Aumento de chuvas não é desculpa para caos nas cidades, diz especialista

 Os governos não devem fugir de responsabilidade sobre tragédias causadas pela chuva e o aumento da incidência de tempestades em consequência das mudanças climáticas globais não pode servir de desculpa para os governos não agirem a fim de evitar enchentes, na avaliação da diretora do Centro de Pesquisas sobre a Epidemiologia de Desastres (Cred), de Bruxelas, na Bélgica, Debarati Guha-Sapir.
Para a especialista, questões como infraestrutura, ocupação urbana, desenvolvimento das instituições públicas e nível de pobreza e de educação ajudam a explicar a disparidade no número de vítimas entre as enchentes na Austrália e no Brasil.
Segundo ela, infelizmente, nada pode ser feito até que a chuva cesse. “Não é possível fazer nada agora para que não chova mais. Mas temos que buscar os fatores não ligados à chuva para entender e prevenir desastres como esses [das enchentes no Brasil e na Austrália]”, disse.
“Dizer que o problema é consequência das mudanças climáticas é fugir da responsabilidade, é desculpa dos governos para não fazer nada para resolver o problema”, acrescentou Debarati Guha-Sapir.
O Cred vem coletando dados sobre desastres no mundo todo há mais de 30 anos. A especialista afirmou que as consequências das inundações são agravadas pela urbanização caótica, pelas altas concentrações demográficas e pela falta de atuação do Poder Público.
“Há muitas ações de prevenção, de baixo custo, que podem ser adotadas, sem a necessidade de grandes operações de remoção de moradores de áreas de risco”, disse a especialista, mencionando como exemplo proteções em margens de rios e a criação de áreas para alagamento (piscinões). Debarati Guha-Sapir disse que a responsabilidade sobre as enchentes não deve recair sobre a população. “Isso é um dever das autoridades. Elas não podem fugir da responsabilidade”, afirma.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Bertha Becker propõe uma revolução para salvar a Amazônia

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A vaidosa senhora de 76 anos chega sorridente a uma sala cheia de estudantes na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


Com sotaque carioca carregado, resigna-se com os problemas no microfone, acende um cigarro e avisa aos incautos que gosta de fazer piada. Os estudantes não entendem a ironia nem o despojamento.


Mas, assim que começa sua palestra na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), eles percebem por que Bertha Becker é uma das cientistas mais respeitadas do Brasil.


Ela estuda a Amazônia há 30 anos, e há pelo menos 10 defende uma revolução científica para salvar a floresta e ao mesmo tempo levar desenvolvimento e riqueza para seus 20 milhões de habitantes.


A exemplo do deputado Ângelus Figueira, ela também acha que criar gado não é crime , ma só acha que na Amazônia não é o melhor lugar para fazê-lo. 


Leia a entrevista com Bertha Becker:


A sra. diz o que o Brasil passa hoje pela litoralização. O que significa?


Durante o Governo de Juscelino Kubitschek e o programa de integração nacional, houve ênfase na interiorização, com a criação de Brasília, as estradas e o avanço das telecomunicações na Amazônia. A Amazônia mudou muito, inclusive com telecomunicações e indústria. Da década de 90 até agora, o que domina é essa logística que não atinge a Amazônia nem o interior do Nordeste. Ela é voltada para exportação e dominada pelas concessionárias privadas, como a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e a agroindústria, o que acentuou a litoralização, abandonou a interiorização e se concentrou no eixo Centro-Sul.


A CVRD e a agroindústria têm projetos na Amazônia.


São pontuais. Carajás, da CVRD, é da mina até o litoral. A exportação mantém o padrão histórico sob o qual fomos forjados, produzindo matéria-prima para mercados globais. Éramos ilhas voltadas para o exterior. É o que acontece novamente. A preocupação com a interiorização foi sustada.


Por necessidade ou escolha?


Houve a mudança da natureza do Estado, em que há privatização intensa com concessões. Ele delega até serviços para o setor privado, que tem o interesse de exportar a produção, enquanto o Estado tinha intenção de interiorizar o povoamento. Enquanto isso, a Amazônia está isolada. Me irrito porque todo mundo do governo enche a boca para falar do valor estratégico da Amazônia, mas ações concretas são muito pequenas.


Qual é o impacto para os 20 milhões de habitantes da Amazônia?
Um movimento de preservação que foi, sem dúvida, um freio no desenvolvimento regional. Claro que era necessário, e é necessário, porque o movimento de interiorização foi violento. Mas talvez não em tão grande extensão, e não tão preservacionista. Proponho uma revolução científica e tecnológica para a Amazônia porque o Brasil já fez umas boas e importantes, como a exploração do petróleo em águas profundas, transformação da cana em álcool e a revolução do cerrado.


É possível unir essa revolução com a proposta ambientalista?
Deve unir. É uma obrigação da ciência e da tecnologia e do Estado brasileiro. O Brasil tem esse desafio e deve saber enfrentá-lo. O desafio maior é encontrar formas adequadas de utilizar o patrimônio natural que promovam a inclusão social, que é o grande problema da Amazônia e do Brasil, sem destruir a natureza. Não é uma revolução positivista. Ela tem de enredar várias disciplinas, com a participação da sociedade. É possível.


Como?


Fiz um estudo para o Ministério da C&T e propus a formação de cadeias tecnoprodutivas em biodiversidade, que viriam desde o âmago da floresta, agregando valor gradativamente, portanto atendendo à população local, até as indústrias nas áreas urbanas, em etapas. Elas passariam pelos centros de biotecnologia. Tem um, em Manaus, que está praticamente parado, e tem de ser posto para funcionar. Há pequenas e médias empresas em Manaus, Belém e Rio Branco que utilizam a biodiversidade para fazer cosméticos: óleos, essências, sabonetes, batons. A biodiversidade é uma coisa fantástica.


Tal produção não estaria aquém do que o governo espera de retorno financeiro da Amazônia?


O governo não tem nada que esperar. A Zona Franca de Manaus é uma potência econômica, o quarto PIB metropolitano do Brasil. O Pará tem minério que alimenta as fábricas de alumínio a baixo custo. A energia da Amazônia, de Tucuruí, é mandada para o Nordeste e para o Sudeste. A Amazônia produz riqueza que é exportada. O governo tem mais é que dar estímulo para que essas coisas se desenvolvam. Organizar as cadeias, assistir os pequenos e médios empresários locais com fundos da inovação, articular pesquisa em empresa. A biodiversidade não é só para dermocosmética não, ela é também para nutricêutica, alimentos que não são remédio mas que dão bem-estar físico, como o guaraná e o açaí. Além dos fitoterápicos. Dizem: “Ah, não podemos competir com as grandes farmacêuticas mundiais”. É verdade. Mas temos um grande problema de saúde pública. Não se pode usar pra isso?


O que a gente vê na Amazônia é o incentivo à produção extensiva de grãos e ao gado.
Isso não é Amazônia, é Centro-Oeste, que se expande em frentes violentas. A questão ambientalista tem uma face legítima e uma geopolítica. Só se a floresta tiver valor econômico que poderá enfrentar as commodities. Os caras preferem tirar madeira, expandir a soja e derrubar a floresta. Mas se ela for valorizada economicamente, a situação muda de figura.


Essa proposta de cadeias produtivas é contrária ao modelo econômico baseado na agropecuária.


Longe de mim dizer que não devemos plantar soja e criar gado. É uma tradição. Na última década, o que sustentou a economia brasileira foi o setor. Mas acho que não precisa derrubar a floresta para isso, né? A soja está no Maranhão, no Piauí, na Bolívia, em todo o Centro-Oeste, na Bahia. Não chega? Há um imenso cinturão “soja-boi” que cerca a floresta, que está se expandindo e vai se expandir mais quando o IIRSA estiver implantado. Vamos destruir a floresta para plantar soja? Temos experiências históricas trágicas da monocultura. Já deveríamos ter aprendido com isso. O país viveu de ciclos monoprodutivos. Borracha. Café. Cana-de-açúcar. Café de novo. Algodão. E depois, quando cai o preço? É o que está acontecendo com a soja. Uma desgraça. Nossa história é marcada pelas monoculturas cíclicas para atender ao mercado externo. Tem de atender? Tem. Mas tem de pensar no mercado interno, nos milhões de brasileiros que estão em péssima condição social. Tem de pensar na logística do pequeno, não só na dos grandões.


É dar valor à floresta em pé?


Exatamente. Aqui entram as cadeias produtivas, quando se pensa uma logística própria para a Amazônia.


Essas cadeias parecem voltadas mais à população rural.
Não, não. É para integrar com a indústria. Nada de “ruralzinho” porque isso não vai dar certo na Amazônia. E não adianta fazer coisa pequena e dispersa que ela não enfrenta a soja e a carne. Em áreas de produção de alimentos, por exemplo, acho que tem de se organizar vilas industriais, uma coisa grande, com cem colonos, como cooperativas, com estradas, acesso à cidade e à circulação. E é mais fácil para o governo ajudar, porque pulverizar dinheiro para 700 assentamentos na mata não tem futuro, né? Você acha que tem?


E a exploração da madeira?


A madeira já é exportada, e muito. Vai para o Sul do Brasil e também para o exterior. Acontece que o Peru faz contrabando da madeira extraída pelo Rio Jamari: pela fronteira, manda para Iquitos e, de lá, é exportado por navio pelo Amazonas como se fosse madeira brasileira, entendeu?


É ter certeza de que aqui não existe fiscalização.


É, não existe. Por isso que acho que essa idéia de manejo florestal através de concessão de floresta pública é muito arriscada. Teoricamente seria muito bom, porque madeira é o produto mais abundante da floresta, então explorar com manejo, tudo bonitinho, seria ótimo. Mas o grande problema do Brasil é que não há fiscalização e cumprimento da lei. Então como você pode conceder as florestas sem fiscalização do manejo? É difícil.


O Inpe está desenvolvendo um sistema de monitoramento dessas áreas por satélite, que mostra a rarefação da cobertura.


Ótimo, então é isso. Porque tem um Sipam que, na verdade, até agora não conseguiu controlar nada. É uma crise institucional no Brasil, sabe? É coisa muito séria mesmo. Com uma década de política ambiental, nós não podemos dizer que a situação do povo amazônico melhorou. Isso significa que o modelo tem de ser modificado. E eu acho que tem de ser através da compatibilização. Produzir sem destruir.


Não é o que se tenta fazer hoje?


Mas cadê? Onde? Está se tentando pelo manejo das florestas públicas? Eu quero cadeias produtivas, que não destruam a floresta, que envolvam a população. Talvez até os índios. Eles estão sem trabalho. Houve a luta para a demarcação dos territórios, de suas terras. Essa luta foi vitoriosa para grande parte. E daí? E depois? Como se usam essas terras? Eles estão sem plano nenhum. Isso é muito perigoso porque acabam onde? Na coca. É um risco.


Com isso a gente entra em outra discussão sobre quanto da floresta é necessária em pé e quanto se pode derrubar, algo que não se tem uma conclusão pois o debate está muito...


Polarizado. É verdade. Isso os cientistas deveriam fazer dentro do sentido da minha revolução científico-tecnológica. Eu não sou economista. Sou geopolítica. Posso falar sobre a valorização da Amazônia, não sobre a valoração, pois isso é coisa da economia e ninguém resolveu. E eu não vou ficar parada esperando. Você não acha?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

Palocci no ministério de Dilma prova que PT não nega o crime. Nega o criminoso.

Ação da polícia nas residências do Complexo do Alemão deu-se sem mandados judiciais.

Dizer que aquela molecada presa pela polícia no Complexo do Alemão são traficantes internacionais de drogas é a mesma coisa que dizer que não tenho inteligência.

Hoje usei o SUS...Levei um susto!

 Lula foi uma porcaria para Saúde! Lembrei dos tempos que ficava na madrugada abaixo de zero para pegar uma ficha pra minha mãe e lá pelas 9 da manhã o funcionário dizia que não tinha mais ficha para o médico.

CANTAR! É PRECISO CANTAR! APLAUSOS NO SEU DESPERTAR COM A BENÇÃO DE PAI OXALÁ VININHA... VELHO, SARAVÁ! IMPÉRIO SERRANO! A BENCÃO, VINÍCIUS!

Enquanto Brasil manda militares para o Haiti, o governo cubano vai mandar médicos para ajudar no combate as doenças.

 ‎2,2 milhões estão contaminados. É urgente ajuda ao povo haitiano.

No primeiro dia de governo, Lula bebeu um vinho de 26 mil reais e no último garantiu o futuro de toda família DELE! EEEEEEEEEEEEEEEEE

OAB vai exigir a devolução dos passaportes da família do fanfarrão.

Começo a acreditar que hoje, o maior perigo para a democracia é o Judiciário.

Ronaldinho Gaúcho sabe que q futebol não é mais um esporte. Futebol é só um mais um investimento econômico.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

HENFIL

Henrique de Souza Filho (5 de fevereiro de 1944, Ribeirão das Neves, Minas Gerais - 4 de janeiro de 1988, Rio de Janeiro), foi um cartunista, jornalista e escritor brasileiro.

"Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente."
Por muito tempo, eu pensei que a minha vida fosse se tornar uma vida de verdade.
Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga. aí sim, a vida de verdade começaria.

Por fim, cheguei à conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade.
Essa perspectiva tem me ajudado a ver que não existe um caminho para a felicidade.
A felicidade é o caminho! Assim, aproveite todos os momentos que você tem.
E aproveite-os mais se você tem alguém especial para compartilhar, especial o suficiente para passar seu tempo; e lembre-se que o tempo não espera ninguém.
Portanto, pare de esperar até que você termine a faculdade; até que você volte para a faculdade; até que você perca 5 kg; até que você ganhe 5 kg; até que seus filhos tenham saído de casa; até que você se case; até que você se divorcie; até sexta à noite até segunda de manhã; até que você tenha comprado um carro ou uma casa nova; até que seu carro ou sua casa tenham sido pagos; até o próximo verão, outono, inverno; até que você esteja aposentado; até que a sua música toque; até que você tenha terminado seu drink; até que você esteja sóbrio de novo; até que você morra; e decida que não há hora melhor para ser feliz do que agora mesmo...
Lembre-se: felicidade é uma viagem, não um destino.
Henfil

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL!

 Um menino nos nasceu, um filho se nos deu. Seu nome, maravilhoso, Deus forte, pai de eternidade, principe da paz" Feliz Natal a todos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Orçamento para educação no Plano Nacional é preocupante, diz especialista

Orçamento para educação no Plano Nacional é preocupante, diz especialista

Sarah Fernandes
As diretrizes de orçamento do novo Plano Nacional de Educação, lançado na última quarta-feira (14/12), são considerada tímidas e preocupantes para movimentos ligados à área. Isso porque o investimento público direcionado ao ensino foi considerado insuficiente para cumprir as metas estabelecidas.

O Plano — que vai nortear as políticas públicas de ensino entre 2011 e 2020 — prevê repassar 7% do Produto Interno Bruto (PIB) para área até 2020. No entanto, a Conferência Nacional de Educação (Conae), onde foram levantadas as diretrizes, aprovou esse valor até o final de 2011, sendo que o montante deveria seguir crescendo, até alcançar 10% em 2014.

Em 2009 a educação recebeu 5% do PIB, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

“Os valores sugeridos pela Conae partiram de estudos e pesquisas. Para cumprir as metas precisaríamos de pelo menos 8% do PIB para educação, mantendo esse valor por no mínimo seis anos”, afirma o coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara.

O eixo de orçamento tem sido o mais polêmico no Plano, desde as votações na Conae. O primeiro lançamento do documento, marcado para 29 de novembro, foi adiado devido a revisões nas diretrizes de investimento, como afirmou o Conselho Nacional de Educação na época.

“Só poderemos dar conta do Plano se houver dinheiro público para educação”, afirma o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Carlos Eduardo Sanches. “A própria presidente eleita se comprometeu com a necessidade de chegar a 7% pelo menos até 2014”.

Entre as estratégias previstas no Plano para alcançar os 7% do PIB está garantir fonte de financiamento permanente, aperfeiçoar mecanismos de acompanhamento da arrecadação e destinar recursos do Fundo Social ao desenvolvimento do ensino.

“O melhor rendimento em avaliações como Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Alunos] e Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] são exatamente das regiões com mais recursos”, avalia Sanches. “Mais verba significaria melhor infraestrutura e uma carreira mais atraente para os professores”.

Custo por aluno

A inclusão do Custo Aluno Qualidade (CAQi) no Plano foi considerada fraca pelos especialistas. O indicador, que determina um valor mínimo de investimento por aluno por ano, foi um dos pontos mais debatidos e bem aceitos da Conferência.

“O documento determina que, em 10 anos, o indicador deve ser definido, porém é muito tempo para esse processo. O ideal que é que ele seja implantado nesse período”, afirma Daniel Cara, da Campanha Nacional pela Educação.

Ele prevê acompanhar a aprovação do documento no Congresso Nacional para pedir a revisão dessa estratégia. Além disso, vai apresentar um conjunto de emendas para aperfeiçoar o Plano, sugerindo ações voltadas especificamente para estados e municípios e a elaboração de metas intermediárias, que deveriam ser cumpridas antes dos 10 anos de validade do plano.

Mudanças e acertos

Para o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Carlos Sanches, o Plano teve acertos, como a pré-determinação notas do Ideb dos próximos anos e a atenção à educação de indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais.

No entanto, elas ficaram enfraquecidas em políticas complementares, como o transporte. “O Plano apresenta estratégias apenas para as frotas de veículo, mas esse não é o único fator determinante do transporte escolar”, avalia.

sábado, 11 de dezembro de 2010

NOEL ROSA


O Rio onde Noel vive

Taberna que artista frequentava ainda existe na Glória, assim como o casario da Rua das Marrecas, outros lugares homenageiam o compositor

KAMILLE VIOLA

A rainha de bateria Sabrina Sato é uma das atrações dos ensaios semanais da agremiação | Foto: Ag. News
Rio - Em 11 de dezembro de 1910 nascia Noel Rosa, um dos maiores nomes da música brasileira. Exatos cem anos depois, não é só no imaginário popular ou no coração dos fãs que ele ainda vive: ainda resistem na cidade lugares que fizeram parte da história do compositor.
Noel viveu e cantou Vila Isabel a ponto de sua história fundir-se com a do bairro. Logo na entrada da Avenida Vinte e Oito de Setembro, a principal do lugar, há uma estátua do compositor, inaugurada em 22 de março em 1996. Ela traz Noel sentado diante de uma mesa de bar, cigarro à mão, copo à frente, servido por um garçom. As calçadas da mesma rua têm a partitura de 'Feitiço da Vila', construída em 1965. A Rua Noel Rosa foi assim batizada em 1950 e há um túnel com o nome.
Ainda estão no bairro a chaminé e a fachada da fábrica de tecidos Confiança, eternizada por Noel na música 'Três Apitos'. Aberta em 1885, ela fi cou em atividade até 1964. Hoje, funciona no local um supermercado. Ali perto, está a vila operária, onde viviam os empregados das fábricas do bairro.
Até não muito tempo atrás, resistia em Vila Isabel, apesar das mudanças na fachada, a casa projetada por Manuel Garcia de Medeiros Rosa, o pai de Noel, onde a família viveu quando o chalé (erguido pelo avó de Noel, Eduardo Correa de Azevedo) estava em más condições. Ficava no número 195 da Rua Teodoro da Silva (hoje orrespondente ao 483). Atualmente, o terreno é ocupado por uma ofi cina de refrigeração e a casa teria sido derrubada há 16 anos, dando lugar a um galpão.
O quarteirão mais animado da Lapa no tempo de Noel começou a vir abaixo na década de 1960. No entanto, não muito longe, na Rua das Marrecas, resta um pouco do Rio do tempo do compositor: a rua mantém alguns de seus antigos sobrados. "Era ali que Vadico, parceiro dos mais importantes que o Noel teve, tinha seu quarto, com piano — ele tocava no cabaré onde Noel ia namorar, o Apollo. A casa do Vadico era muito usada para encontros amorosos", conta Carlos Didier, biógrafo do Poeta da Vila.
Outro ponto de encontro era a Taberna da Glória, na Rua do Russel. Embora tenha se mudado, para poucos metros depois (em 1972, com as obras do metrô), internamente mantém a decoração original — foi lá, por exemplo, que Noel Rosa levou Araci de Almeida quando se conheceram.
A parceria com Nássara
Entre os 56 parceiros musicais de Noel Rosa, estava outro ilustre artista, que também completaria 100 anos em 2010: o cartunista e compositor Nássara. Ao contrário do amigo, no entanto, ele pouco foi lembrado: apenas pelo livro 'Nássara Passado a Limpo' (ed. José Olympio), de Carlos Didier (também biógrafo de Noel), a ser lançado ainda em dezembro.
Antônio Gabriel Nássara nasceu exatamente um mês antes de Noel, em São Cristóvão, mas logo se mudou para a Vila Isabel. Foi lá que conheceu Noel, onde os dois frequentavam lugares como o Martinez, o botequim do Carvalho, o Ponto de 100 Réis e o Café Ponto Chic.
Nássara morava na Rua Teodoro da Silva, no mesmo trecho do bangalô – casa construída pelo pai de Noel –, onde o compositor viveu durante seu tempo de aluno do Colégio São Bento.
Desde 1927, Nássara já fazia caricaturas para jornais e revistas. Mas depois revelou também o talento de compositor — é dele a clássica 'Alá-la-ô', hino dos carnavais até hoje. Ele e Noel fi zeram juntos duas marchas: 'Retiro da Saudade' (1934) e 'Que Baixo' (1936).
A primeira tem uma história curiosa: Noel começa a cantar a música no rádio, com outra letra. Nássara brinca com o amigo "que foi passado para trás". Uma semana depois, Noel o procura para assinar contrato com a gravadora. E chama Carmem Miranda e Francisco Alves, maiores cantores da época, para cantar os versos que compôs com Nássara no único disco que gravaram juntos.
Jorginho do Império vai homenagear o poeta | Foto: Deisi Rezende / Agência O Dia
Com a palavra, Jaguar
Mais do que justa qualquer homenagem ao centenário de Noel Rosa. Já o Nássara, outro genial compositor, que nasceu um mês antes dele, quase não foi lembrado. Na foto acima, batida por mim há uns 20 anos, em Vila Isabel, os dois cariocas emblemáticos evocam as rodas de bamba no Café Nice, frequentadas por craques da música, como Orestes Barbosa e Haroldo Lobo, e do futebol: Leônidas – o Diamante Negro – e Domingos da Guia. Noel e Nássara foram parceiros no samba 'Retiro da Saudade' (1934), gravado "apenas" por Francisco Alves em dueto com Carmem Miranda. No coro: Os Diabos do Céu. O Café Nice fi cava onde hoje é a sede da Caixa Econômica, no Centro. Atenção, galera americanizada: pronuncia-se nice e não naice!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

WIKILEAKS merece protecção, não ameaças e ataques.

Não matem o mensageiro por revelar verdades incómodas. por Julian Assange [*]



Em 1958 o jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor do jornal The News, de Adelaide, escreveu: "Na corrida entre o segredo e a verdade, parece inevitável que a venda sempre vença".

A sua observação talvez reflicta o desmascaramento feito pelo seu pai, Keith Murdoch, de que tropas australianas estavam a ser sacrificadas inutilmente nas praias de Galipoli por comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo mas Keith Murdoch não foi silenciado e os seus esforços levaram ao término da desastrosa campanha de Galipoli.

Aproximadamente um século depois, WikiLeaks está também a publicar destemidamente factos que precisam ser tornados públicos.

Criei-me numa cidade rural em Queensland onde as pessoas falavam dos seus pensamentos directamente. Elas desconfiavam do governo como de algo que podia ser corrompido se não fosse vigiado cuidadosamente. Os dias negros de corrupção no governo de Queensland antes do inquérito Fitzgerald testemunham do que acontece quando políticos amordaçam os media que informam a verdade.

Estas coisas ficaram em mim. WikiLeaks foi criado em torno destes valores centrais. A ideia, concebida na Austrália, era utilizar tecnologias da Internet de novas maneiras a fim de relatar a verdade.

WikiLeaks cunhou um novo tipo de jornalismo: jornalismo científico. Trabalhamos com outros media para levar notícias às pessoas, assim como para provar que são verdadeiras. O jornalismo científico permite-lhe ler um artigo e então clicar online para ver o documento original em que se baseia. Esse é o modo como pode julgar por si próprio: Será verdadeiro este artigo? Será que o jornalista informou com rigor?

Sociedades democráticas precisam de meios de comunicação fortes e WikiLeaks faz parte desses media. Os media ajudam a manter o governo honesto. WikiLeaks revelou algumas verdades duras acerca das guerras do Iraque e Afeganistão, e desvendou notícias acerca da corrupção corporativa.

Há quem diga que sou anti-guerra: para que conste, não sou. Por vezes os países precisam ir à guerra e há guerras justas. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir ao seu povo acerca daquelas guerras, pedindo então a estes mesmos cidadãos para porem as suas vidas e os seus impostos ao serviço daquelas mentiras. Se uma guerra é justificada, então digam a verdade e o povo decidirá se a apoia.

Se já leu algum dos registos da guerra do Afeganistão ou do Iraque, algum dos telegramas da embaixada dos EUA ou algumas das histórias acerca das coisas que WikiLeaks informou, considere quão importante é para todos os media ter capacidade para relatar estas coisas livremente.

WikLeaks não é o único divulgador dos telegramas de embaixadas dos EUA. Outros media, incluindo The Guardian britânico, The New York Times, El Paisna Espanha e Der Spiegel na Alemanha publicaram os mesmos telegramas.

Mas é o WikiLeaks, como coordenador destes outros grupos, que tem enfrentado os ataques e acusações mais brutais do governo dos EUA e dos seus acólitos. Fui acusado de traição, embora eu seja australiano e não cidadão dos EUA. Houve dúzias de apelos graves nos EUA para eu ser "removido" pelas forças especiais estado-unidenses. Sarah Palin diz que eu deveria ser "perseguido e capturado como Osama bin Laden", um projecto de republicano no Senado dos EUA procura declarar-me uma "ameaça transnacional" e desfazer-se de mim em conformidade. Um conselheiro do gabinete do primeiro-ministro do Canadá apelou na televisão nacional ao meu assassinato. Um bloguista americano apelou a que o meu filho de 20 anos, aqui na Austrália, fosse sequestrado e espancado por nenhuma outra razão senão a de atingir-me.

E os australianos deveriam observar com nenhum orgulho o deplorável estímulo a estes sentimentos por parte de Julia Gillard e seu governo. Os poderes do governo australiano parecem estar à plena disposição dos EUA quer para cancelar meu passaporte australiano ou espionar ou perseguir apoiantes do WikiLeaks. O procurador-geral australiano está a fazer tudo o que pode para ajudar uma investigação estado-unidense destinada claramente a enquadrar cidadãos australianos e despachá-los para os EUA.

O primeiro-ministro Gillard e a secretária de Estado Hillary Clinton não tiveram uma palavra de crítica para com as outras organizações de media. Isto acontece porque The Guardian, The New York Times e Der Spiegel são antigos e grandes, ao passo que WikiLeaks ainda é jovem e pequeno.

Nós somos os perdedores. O governo Gillard está a tentar matar o mensageiro porque não quer que a verdade seja revelada, incluindo informação acerca do seu próprio comportamento diplomático e político.

Terá havido alguma resposta do governo australiano às numerosas ameaças públicas de violência contra mim e outros colaboradores do WîkLeaks? Alguém poderia pensar que um primeiro-ministro australiano defendesse os seus cidadãos contra tais coisas, mas houve apenas afirmações de ilegalidade completamente não fundamentadas. O primeiro-ministro e especialmente o procurador-geral pretendem cumprir seus deveres com dignidade e acima da perturbação. Fique tranquilo, aqueles dois pretendem salvar as suas próprias peles. Eles não conseguirão.

Todas as vezes que WikiLeaks publica a verdade acerca de abusos cometidos por agências dos EUA, políticos australianos cantam um coro comprovadamente falso com o Departamento de Estado: "Você arriscará vidas! Segurança nacional! Você põe tropas em perigo!" Mas a seguir dizem que não há nada de importante no que WikiLeaks publica. Não pode ser ambas as coisas, uma ou outra. Qual é?

Nenhuma delas. WikiLeaks tem um historial de publicação quatro anos. Durante esse tempo mudámos governos, mas nem uma única pessoa, que se saiba, foi prejudicada. Mas os EUA, com a conivência do governo australiano, mataram milhares de pessoas só nestes últimos meses.

O secretário da Defesa dos EUA, Robert Gates, admitiu numa carta ao congresso estado-unidense que nenhumas fontes de inteligência ou métodos sensíveis haviam sido comprometidos pela revelação dos registos de guerra afegãos. O Pentágono declarou que não havia evidência de que as informações do WikiLeaks tivessem levado qualquer pessoa a ser prejudicada no Afeganistão. A NATO em Cabul disse à CNN que não podia encontrar uma única pessoa que precisasse de proteger. O Departamento da Defesa australiano disse o mesmo. Nenhuma tropa ou fonte australiana foi prejudicada por qualquer coisa que tivéssemos publicado.

Mas as nossas publicações estavam longe de serem não importantes. Os telegramas diplomáticos dos EUA revelam alguns factos estarrecedores:
  • Os EUA pediram aos seus diplomatas para roubar material humano pessoal e informação de responsáveis da ONU e de grupos de direitos humanos, incluindo DNA, impressões digitais, escanerização de íris, números de cartão de crédito, passwords de Internet e fotos de identificação, violando tratados internacionais. Presumivelmente, diplomatas australianos na ONU também podem ser atacados.
  • O rei Abdula da Arábia Saudita pediu que os EUA atacassem o Irão.
  • Responsáveis na Jordânia e no Bahrain querem que o programa nuclear do Irão seja travado por quaisquer meios disponíveis.
  • O inquérito do Iraque na Grã-Bretanha foi viciado para proteger "US interests".
  • A Suécia é um membro encoberto da NATO e a partilha da inteligência dos EUA é resguardada do parlamento.
  • Os EUA estão a agir de forma agressiva para conseguir que outros países recebam detidos libertados da Baia de Guantanamo. Barack Obama só concordou em encontrar-se com o presidente esloveno se a Eslovénia recebesse um prisioneiro. Ao nosso vizinho do Pacífico, Kiribati, foram oferecidos milhões de dólares para aceitar detidos.
Na sua memorável decisão no caso dos Pentagon Papers, o Supremo Tribunal dos EUA declarou: "só uma imprensa livre e sem restrições pode efectivamente revelar fraude no governo". Hoje, a tempestade vertiginosa em torno do WikiLeaks reforça a necessidade de defender o direito de todos os media revelarem a verdade.
08/Dezembro/2010
[*] Editor-chefe do WikiLeaks.

O original encontra-se em www.theaustralian.com.au/... 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Menino Jesus era traquinas e até fazia malvadezas, mostra livro de padre



ARIADNE ARAÚJO
colaboração para a Livraria da Folha
Divulgação
Livro de franciscano mostra um Jesus travesso na infância
Livro de franciscano mostra um Jesus travesso na infância


Um menino Jesus traquinas, que subia nos telhados, quebrava os cântaros alheios, brincava com leõezinhos, apaziguava dragões, transformava crianças em carneiros e, vez ou outra, fazia também malvadezas. Zangado, podia amaldiçoar e punir com a morte quem lhe enfrentasse. Outras vezes, para tirar uma história a limpo e provar que não tinha culpa de uma morte casual, ressuscitava mortos para que contassem o que aconteceu, depois os mandava dormir o sono eterno outra vez.
Em "Infância Apócrifa do Menino Jesus: histórias de ternura e de travessuras" (Vozes), o padre franciscano Jacir de Freitas Faria pesquisou em textos antigos, chamados de evangelhos apócrifos, ou seja, que não entraram na lista oficial para a Bíblia, e descobriu que Cristo foi uma criança sábia, inteligente, obediente aos pais, mas também muito peralta. Segundo ele, todos os textos pesquisados convergem para um mesmo ponto: "demonstrar o poder do Menino Jesus, sua divindade e sua humanidade".
Segundo os evangelhos apócrifos, Jesus foi concebido, através do Espírito Santo, no dia 6 de abril, numa terça-feira, às 15h. Ainda bebê, já era capaz de fazer milagres. Tocar nele ou nas suas fraldas era cura certa para todos os males e um expulsa demônios. A água de seu banho livrava leprosos da enfermidade. No colo de uma muda, ela voltou a falar. Onde ele chegou, ladrões e demônios fugiram e animais ferozes se converteram em mansos. O povo, ao ver tais eventos, dizia: "eles não podem ser simples mortais".
Já maior, costumava brincar com amiguinhos. Certa feita, nas terras de Moab, um deles subiu no muro do terraço e caiu de lá, bateu a cabeça numa pedra e morreu. Por medo do castigo dos pais, as outras crianças culparam o pequeno estrangeiro, Jesus, dizendo que ele tinha empurrado o menino de cima do muro. Interrogado, Jesus tentou explicar o acontecido, mas as testemunhas o incriminavam. Aborrecido, ele, então, ressuscitou o morto e lhe ordenou que contasse a verdade. Depois, mandou que voltasse ao mundo dos mortos outra vez.
Outra vez, de novo com amiguinhos, brincava de fazer laguinhos interligados à beira do rio Jordão quando um dos meninos fechou a entrada da água para os canais. "Ai de ti, filho de morte, filho de Satanás. Ousas destruir o que eu fiz?", disse Jesus. Naquele instante, o menino caiu morto. Aflitos com a repercussão do caso, José e Maria pediram ao filho que não usasse sua força divina dessa forma. Então, para não entristecer a mãe, ele ordenou que o menino ressuscitasse. E assim foi.
A lista de histórias é de assombrar. Segundo padre Jacir, apesar dos textos apócrifos, jamais poderemos afirmar com certeza como foi a infância de Jesus. Afinal, esses relatos foram escritos no auge de disputas teológicas sobre a divindade e a humanidade de Jesus. E, para muita gente, "são pura fantasia". Mas, para o padre, eles têm o grande mérito de dar uma infância a Jesus e de mostrar que ele foi um menino igual aos outros. Ou seja, apesar sua divindade, fazia traquinagens e precisava, vez ou outra, do velho puxão de orelha dos pais.
*
"Infância Apócrifa do Menino Jesus"
Autor: Jacir de Freitas Faria
Editora: Vozes
Páginas: 160
Quanto: R$ 20,00
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha